sábado, 3 de Outubro de 2009

Sentir como Ele sentiu.

Eras tu o meu caderno em branco, no qual dia após dia ia apontando todas as palavras que eu necessitava guardar bem seguras, a fim de que elas se tornassem reais. Eras tu a minha surpresa diária, a voz que surgia com o barulho das ondas, quando conversávamos no outono, na praia e nas noites. Eu buscava o teu abraço aos domingos de manhã, corria para o nosso lugar, a fitar o horizonte eu via a tua face e, naquela época, eu tinha paciência, porque eras tu somente quem eu esperava. Eras o hoje, refúgio.
Você derramou vida no meu ser, fez comigo uma aliança, um tratado. Agarraste a palma da minha mão com a tua doce mão, deste-me dádiva em perfeição e eu sabia que as minhas palavras tinham subido ao teu altar como incenso a queimar. Eu tinha um cheiro suave, Senhor.
Ganhei vitória, perdi conquista. Desperdicei sementes tuas, sufoquei-as. De trigo passei a joio e, sem nenhuma experiência sábia com o teu falar, ensurdeci ouvidos prontos a escutar. Eras tu a soprar no meu coração pelo lado de fora. Sentia eu o arrepio de ti?
Quantas vezes esteve ele comigo numa mesma sala, e não dei pela sua presença? Intermináveis segundos esteve ele a falar aos meus sentidos, a revirar minha mente, a abalar o meu coração, e eu não me toquei que era a sua voz, os seus pensamentos e sentimentos. Não posso imaginar como os seus ouvidos tinham saudade da minha voz aguda, não sei descrever o quanto aqueles olhos necessitavam ver resplandecer no meu rosto, submissão. E eu fiz-te ontem, Senhor.
Pediste palavras no meio da noite, pediste consideração pelos grandes feitos. Até mesmo um sorriso sincero necessitava os teus olhos e, como um adulto sem dias de sol, eu ignorei que mesmo tendo um céu nublado acima da minha cabeça, estavas ali para eu crer que após a chuva mandarias um arco-íris e com ele eu sorriria. Mas eu entristeci o teu rosto e abalei as forças do teu espírito.
Pedi e recebi o teu perdão. Com ele, tardiamente, mandaste revelação. Mas tudo o que roubei de ti vejo hoje com meu próprio entendimento, Senhor. Vejo o valor do tesouro que te saqueei, sinto o tempo perdido quando te condenei ao exílio. O gosto amargo da indiferença, a facada no peito da ausência de diálogo, a pressão exercida pela saudade de um melhor amigo. Sinto a cruz que carregaste por mim, tudo por me querer carregar no colo quando eu não tinha coragem ser levada por ti. Conto todos os dias as horas em que me perdeste e ainda tenho a coragem de dizer que não aguento mais! Mas Tu Jesus esperaste muito mais tempo por mim, do que tenho eu esperado por Ti. Não passei metade do tempo que passaste a minha espera, e como posso eu reclamar?!
Hoje és meu hoje Pai, hoje és meu agora. Sou hoje o que te fiz sentir no passado, a cruz que carregaste com o meu nome. Sou hoje corpo cansado e sem saúde, mas com força para dizer que a tua misericórdia ainda dura para mim.
Eu sei que para sentir a felicidade que sentiste ao me ver gritar pelo Teu nome, tenho de passar pelo esquecimento que te submeti, e não o nego. Apenas te peço Senhor nosso, que continues a ouvir o meu chamado, o grito no Teu ouvido e o sussurro de quem desfalece, pedindo-te que não passe de mim esse cálice, mas que me dês o privilégio de sentir a felicidade que o Senhor sentiu, ao chamarem o meu nome.

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