Sábado, 14 de Janeiro de 2012

O que é feito de ti?


O que é feito de ti, minha Lisboa? Ando por tuas ruas e me sinto perdida, em meio aos teus desgostos encontrei os meus desamores, já não reconheço o samba que tocavam os teus ventos e hoje a única coisa que escuto são os intermináveis soluços do teu fado, tão farto de ser por mim cantado. 
O que é feito de ti, minha Lisboa? Onde escondeste os sorrisos da minha mocidade, o amor vivido dentro dos teus castelos, a simples satisfação de sentir a presença da tua antiga arquitectura? Fizeste casas por mim, entretanto não me deixas morar em nenhuma delas. Fizeste com que eu me apaixonasse pelas tuas raízes, pela tua confusão, por teu braço aberto, pela tua face iluminada durante as noites do continente.. as tuas calçadas prendem meus pés num desejo esmagador que não te quer deixar. Mas parece que já não te importas mais, Lisboa!
Não me venha chatear, terra minha, pois meu coração já não quer te ouvir. Foi em ti que encontrei o amor que anula qualquer possibilidade de escolha, foi em ti que descobri não viver mais, foi em ti tudo e hoje nada...
Foi na terra nossa, que chama incessantemente pelo meu nome.
Você me diz:
- Vai...Vai, porque o inverno não queimou o que sempre te doeu.
- Vai menina moça, porque decididamente estás a perder. 

Domingo, 7 de Agosto de 2011

Caminhando com você.

Estamos numa rua bem longa, não tenho percepção da distância entre nós e o seu fim, mas sei que ela é sem saída. Você num lado da estrada, eu do outro. Você me olha, teus olhos me dizem: - Vamos.
Eu quero pegar na tua mão mas você permanece com elas no bolso. Nesta hora meu pensamento tenta vaguear pelo teu, querendo saber o que você realmente tem vontade de fazer, mas teu corpo não demonstra o que acontece no teu interior. Então eu me contento em apenas caminhar contigo, numa rua deserta. Os teus passos são pequenos, como quem não quer chegar ao fim da estrada. Eu por vezes me vejo a andar mais depressa e, quando me apercebo, olho para trás e te vejo parado, me olhando, como quem diz "vamos com calma". Meu olhar te pede desculpas, vou ter contigo na mesma direção que a tua e, contigo, continuo a caminhar pela rua que está tão ausente de nos dois.
O silêncio que nos aperta a alma parece esvaecer quando, de uma casa bem velha, ecoa o som de uma canção nossa. Teus passos encurtam, tua perna para. Você me olha e senta. Eu acompanho tua ação e sinto a textura do asfalto. Agora estamos parados, sentados, olhando para a imensidão dos nossos olhares. A melodia parece partir nossos ossos, as notas são sentidas na pele e a letra nos dá conselhos. Você passa a mão pelos seus cabelos, num gesto tão teu e que conheço bem, sinto um arrepio pela minha espinha, não contendo um aperto esperado, implorado, desejado... Percebendo tua vida em mim, derramo por ti uma gota salgada, que escorre pela minha face fria e cansada. Você levanta, anda em círculos criados por ti mesmo, você para. Está cada vez mais alto aquele som que desvenda nossas mentiras, você atira uma pedra naquela janela velha, mas o vidro não quebra. Eu te observo encolhida, calada, querendo te acolher ali mesmo, mas você quer continuar a andar e eu te respeito. Continuamos andando sem saber onde a rua termina, continuamos cada um no seu lado da estrada, continuamos juntos mas sozinhos.
Eu quero gritar, conversar, discutir, interrogar, questionar, equacionar. Você quer andar, somente andar do meu lado. Eu quero abraçar, relembrar, sentir, emocionar. Você quer continuar tentando, somente tentando interiormente. E é pela razão da tua tentativa que continuo te amando.
Já se passaram anos nessa caminhada, a gente repara que o fim da rua não está visível, você me olha e me pergunta: - Porquê? Eu te digo: - Não sei.
Então os teus pés encontram o meu lado da rua, você tira as mãos do bolso e coloca uma delas entre os meus dedos, você sente que o fim da rua está mesmo bem perto, você me puxa e a gente corre... a gente corre porque você diz que é por amor. E nesse caso, não precisamos sentar e conversar. Correr, apenas correr.

Segunda-feira, 25 de Abril de 2011

Entre os teus escombros.

Não existem memórias que durem para sempre, não existem sentimentos que durem para sempre, não existem canções que são tuas para sempre, pois haverão sempre memórias assoladas, sentimentos que morrerão no mar do esquecimento e canções que os teus ouvidos não suportarão escutar.
Não existe bom homem que dure um dia, não existe um justo sequer na terra, não existe tu. Quem dera fosses um Jesus dos anos 80, mesmo assim não poderias ser meu. Quem me dera não mais existir eu, tu desaparecerias em mim. Sim, tu morrerias. A idealização e tudo que ela representa morreria. Então finalmente você viveria, de uma outra forma. 
Já não existe um céu meu em que tu possas viver, já não existe a tal soma que nunca iria subtrair, não há vida no meu peito e ar para os teus pulmões. Ela morreu sozinha no velho alpendre, ela se afogou no rio de lágrimas. Ele levou tudo que era dela, ele levou tudo que era teu, e o corpo dela repousa sobre os escombros.
E pela primeira vez existe vontade em abandonar-te e me abraçar, e perceber que as minhas memórias não podem durar para sempre, que os meus sentimentos não devem durar para sempre, que não devo mais escutar aquelas canções, porque não é merecido o rio de lágrimas chorado por ti, porque foi desperdício o tempo no alpendre e o deitar-me em meio aos teus escombros. Porque a realidade é uma só e dura a nossa eternidade: estive presente todas as vezes em que estava longe, e tu presente nunca estiveste por perto, muito perto. Então deixo ir a vontade de ser a sombra da tua sombra, o silêncio inquietante do teu quarto e o arrepio de nós. Tão tudo, e tão nada.


Quarta-feira, 16 de Março de 2011

Alguém como você.

A noite é a minha primeira inimiga. Ela revela na mente imagens que nunca vi, mas dada sua persistência e a intuição do sentir, consigo ver a silhueta de um fantasma feminino no meio da escuridão dos teus segredos. Tuas palavras ocultas disseram-me que ela é real, teus sentimentos trouxeram-na até minha casa. Ela tocou a campainha, olhou-me nos olhos e disse tudo aquilo que os anos entregaram-te à porta. Ela fazia parte do pacote.
Andou contigo por lugares que meus pés não percorreram, mas que o pensamento vagueia. Cantou-te canções que amo. Sorriu com o teu sorriso. Pulou no teu colo. Bebeu no teu copo. Ela pulou no teu colo e bebeu no teu copo! E embriagada, ela viaja milhas e põe-se de pé na minha cama, seu riso ecoa no quarto, ela aperta a minha alma para depois ir embora, ilesa. Ali permaneço, humilhada na mente, mas exaltada no coração.
Porque ela é Marta, mas eu sou Maria. E eu escolhi a melhor parte.

Quarta-feira, 24 de Novembro de 2010

O quarto com fotografias.

Pinceladas de tinta cinzenta numa parede gigante. Observando pela porta, ela pensava no quanto existe pureza numa brincadeira de criança. Havia jornal espalhado pelo chão, entretanto não fora o bastante para que o mesmo não recebesse algum bocado de tinta. Um corpo pequenino tagarelava de um lado para o outro, girando ao som da música que ecoava naquele cómodo profundo. Era a filha que pintava.
Pinceladas de tinta preta numa parede gigante. Observando pela porta, ela lembrava dos anos e um sorriso gostoso brotava da sua boca. Havia um escadote do lado direito do quarto, um corpo esbelto cheio de tinta e uma voz que cantava naquele cómodo íntimo. Era o marido que pintava.
Após alguns dias os três enchiam aquela parede cinzenta e preta de história, vestígio e passado. O congelar momentos estava estampado naquele grandioso álbum de família, no qual cada 15x20 contava algo diferente das Polaroid
Livros, livros bem equilibrados numa estante, instrumentos de corda, leitor de vinis, aquela máquina de escrever, desenhos infantis emoldurados, milhares de fotografias antigas, recentes e futuras, um marido perfeito, uma dádiva do Senhor e um sofá gigante faziam parte da decoração do sonho ao qual fui agora acordada, pela trovoada lá fora.  
É ainda madrugada fria e meus pensamentos cansados reconhecem que nem nestas amargas horas o silêncio da tua ausência dá algum descanso na alma. E sentindo a frustração de viver o sonho apenas em sonho eu pego no teu travesseiro, vagueio pela casa e me pergunto a razão de não me deixares dormir.

Quarta-feira, 10 de Novembro de 2010

No teatro com um ladrão.

Chão de madeira, cenário nu, silêncio nas poltronas. Não há cortinado, existe apenas uma velha cadeira ao centro do palco e uma idosa menina de olhos vermelhos. Ela veste um vestido preto com bolinhas brancas, tem a maquilhagem toda borrada e o senhor que a fita do lugar onde senta não deixa de reparar numa gota preta que passa pelos seus lábios vermelhos.
Uma voz rouca faz nascer um monólogo. Ele continua vidrado nos seus olhos, tentando limpar aquele rio escuro apenas com sua presença dentro daquelas quatro paredes gélidas, mas ela não pára e o rio torna-se cada vez mais sujo. Ela se importa, ele não é o ele que a deve escutar.
Suas palavras choram, queixam-se. As palavras gritam e não percebem o porquê, ela sufoca-se em meio aos soluços e o senhor na plateia pede que ela se acalme. Ela continua. Ela se importa, ele não é o ele que a deve calar.
Ela levanta-se e começa a andar em círculos, em círculos gigantes. Ela desenha o teu retrato com as pernas e os pés. Quando estava tonta, parou. Limpou os olhos com os braços e resolveu encarar o senhor. Temeu dizer umas verdades, mas continuou. Sua ira era maior, porque começara a ler o coração daquele ladrão através dos seus olhos, ficou amedrontada com o que descobrira. Ele estava ali porque entendia a sua dor. Ele estava ali porque, mesmo não podendo, queria apaziguar toda a fragilidade de um corpo tão pequeno e trémulo. Mas, ainda mais irada pela ironia do teatro da vida, ela continua. E agora, ela sussurra não seguido de não, e afirma o não com a cabeça. Ela continua, porque ele não era o ele que deveria lá estar.
Ela senta, exausta, cansada dos anos. E olhando para a porta da sala de espectáculos, não te encontra. Não ouviste nada que saíra, tão puro e enervado, do seu coração magoado. E as palavras reprimidas, o choro de menina e a imagem de uma linda criatura indignada foram roubadas pelo ladrão que sentara na tua poltrona.
Não satisfeita, ela acaba ali, morrendo no silêncio da tua ausência.

Sexta-feira, 8 de Outubro de 2010

Agora não temos música.

Minha Jukebox estava deprimida, encolhida num canto da sala, ela não toca há décadas. Havia poeira em cima das notas que tocaram os anos de contentamento que espelhavam uma vida tão pura, porque ninguém ousou sujar as mãos para limpar nada, estava intacto, existia um metro de pó em cima do que éramos nós. Talvez os coitados dos músicos pensaram que era parte da minha decoração, pois lá de dentro olhavam para a minha face com um olhar de aceitação, mas a verdade é que eu sempre li nos seus olhos a reprovação de alguém que quer ajudar a avançar, mas tem medo de cantar. Então o que eles fizeram? Nada. Não chamaram pelas minhas moedas.
Acontece que não enrolei meu medo nos laços que me prendem em alguma segurança, peguei num pano velho e enfrentei a verdade de nós. A sala reparou que hoje limpei a poeira, hoje mesmo gastei milhões em troca de notas. Ouvi ruídos, ouvi choro. Lembrei-me de risos, lembrei-me do gozo. Estava eu dentro da Jukebox, encontrei-me contigo, encontrei-me com ruas, lugares, cheiros, feições, emoções, discussões, refeições, balcões, laranjas, doces laranjas. Cada acorde tocava uma lembrança nossa, numa cabeça sempre minha. Entretanto a junção de uma vida fora cantada por uma intrincada salada de músicas, nesse cenário eu frustrei aquele avanço em busca de nós ao permitir que o meu coração me perguntasse: Qual é a vossa música?
E estas palavras que nasceram no coração ganharam vida junto aos ouvidos, que passou para a memória a longo prazo, fazendo com que meu corpo inteiro procurasse o início da nossa canção. Eu não encontrei.
Sei eu que numa caixa Djavan cantou-te versos, meus dedos cantaram-te uns versos. Mas a verdade é que eu tento te encontrar por meio das melodias, num passado tão distante e num presente tão ausente de musicalidade, e não te encontro. Não porque não tivemos uma, mas por não saber qual delas fomos nós.

Terça-feira, 29 de Junho de 2010

Eu te faço respirar.

Eu estou presa dentro de uma caixa cheia de palavras e não consigo sair, porque suas letras continuamente engolem minha fala e não consigo gritar por alguém que está ai fora. Já não são os temores que atormentam, uma leve lágrima cheia de solidão rolando pelo rosto em meio a madrugada ou a incerteza de ti, mas sim essa explosão, essa guerra dentro desta caixa, tão minha, mas mais tua. Diariamente as letras me pedem para as transformarem em outras palavras, fazendo uma reviravolta neste quadrado, neste livro, neste diário ambulante que sou, mas o silêncio encontrado dentro da caixa de segredos obrigam-nas a continuarem a ser o que hoje são, o que ontem foram: Mudas. Quero eu que elas sejam o que não são, amanhã? Nem imaginas como!
Acontece que permaneço calada interiormente, aprisionada dentro de ti, implorando por uma dor que não sejas tu, e aparece a terceira pessoa que olha essa história como espectadora e nos diz que meu coração é esta caixa, com fundo cheio de letras, pedindo que possam nascer falando, talvez gritando. Ela andou sondando a casa, encontrou-me estes anos sentada no alpendre, acompanhando a minha velhice, tentando fazer com que eu não me esquecesse de que a certeza de ti me faz caminhar. Sabe ela o valor do meu silêncio, da vivacidade camuflada no iníco da alvorada e do desespero bem comportado no meio da noite. É ela que olha nos meus olhos cansados e desenha sobre a minha face o caminho deste rio de lágrimas, seus dedos me dizem que ele em breve culminará num oceano de riso, pois deslizam até a morada desse tal sentimento imponente, prepotente, fiável. Sendo eu tão obediente, escuto sua história e seus planos, pego na folha em branco que me resta e começo a escrever o retrato do futuro. Escuto de longe a tua voz que me chama e ela me autoriza a despejar palavras minhas, num papel nosso.
Chegaste tu, teus olhos fixos neste papel amarelado lê a eternindade de silêncio destes anos e exatamente como esperava, o rio de lágrimas que tanto se fez presente no solo da minha face, brota no teu rosto desenhado por mãos santas. Palavras nos engolem, palavras e rios nos afogam. Entretanto ainda havia fôlego, sinto teus braços a me puxarem para cima, tomas de mim a caneta das mãos no momento em que eu escrevia o sentido dos anos mudos e, em meio ao oceano de riso que nos rodeava tu leste em voz alta: "Eu te faço respirar".
E com aquela cara de felicidade extrema que só tu tens, escreveste no finalzinho daquela página, com um rosto iluminado: "Ele nos fez respirar".

Domingo, 4 de Abril de 2010

Sente-nos.

A tua presença arrebata e inunda sentidos em mim, a dor do choro se encontra presa pela garganta e nessa hora o meu espírito canta com lágrimas de gratidão. O rio que fazes correr pela minha face é a presença da tua fonte e quando me encontras Espírito Santo, esse rio arrebenta num mar e com o poder das tuas águas agitas o meu ser com tamanha autoridade que a minha alma sente a impressionante maneira de mostrares o constrangimento do teu amor.
Sei que procuras a minha face em meio ao teu povo, neste momento os teus ouvidos estão bem próximos do meu coração, eu leio as cartas que necessito te entregar naquela hora, elas são tantas, elas estão baralhadas, minha alma naquele preciso momento está contigo e também está a vaguear por lugares que não sei quais são, tudo porque por ele, nestes momentos contigo Senhor, tenho espírito omnipresente. No meu louvor e na minha entrega tenho convicção de que és Deus connosco, na minha paciência e esperança a fé me mostra que és Deus connosco. Mas quando partilharás comigo as tuas obras, Senhor? Quando chegará o dia em que me mostrarás o vaso de honra que estás arduamente a moldar, para teu louvor? Meus lábios anseiam cantar Romanos 8:31-39, minha alma deseja pela resposta que deste a Jó, nas horas que te louvo e que estou entronizada contigo sinto que milagrosamente estás a tocar onde as minhas mãos não chegam, como eu penso que num súbito me dirás que esta obra está completa e virás com a tua confirmação, com a minha dádiva, levando embora todos os meus temores...e tu ainda não aparecestes assim.
Apesar de não saber o dia desta visita esperada, ali estou eu a sentir o poder da intercessão, juntamente com as tuas mãos levantadas há transmissão de união, e onde há união liberas tu a unção. Milagrosamente neste precioso momento estás comigo a reedificar uma casa que construíste e, sem temer o tempo eu ordeno, sabendo dos sonhos de Deus, que ouvidos possam ouvir, coração possa sentir e espírito possa obedecer a vontade do Pai.
Em oração levo, em oração unifico. Porque o nosso Deus nos concede o que por Ele foi determinado.

Quarta-feira, 17 de Fevereiro de 2010

Salvador daqui.

Meus olhos me agridem na madrugada quando o pranto esmaga. Meus membros lutam contra a minha alma, meu pensamento encarna no sangue, existe descontrole por tudo que sou e no silêncio do meu quarto há clamor por Emanuel.
Eu entro no Santo dos Santos, as águas salgadas abafam a minha voz e dificultam a fala, mas sabendo que os Teus olhos sugam todas as letras que vagueiam no meu coração, eu desisto de fazer força, não digo, porque na privação da minha fala trazes providência ao meu cansaço. Vens com o Teu sopro de vida sobre as minhas narinas e num súbito todo ambiente expele a presença de Emanuel. É neste momento que meu espírito e o Consolador vagueiam dentro de quatro paredes alheias e eu creio que juntos chegamos lá. Abres a porta e há quem durma.
É invisível a Tua mão nas nossas cabeças, tens sido um silencioso Carpinteiro, mas todas as madrugadas sei eu, És sentinela em nossas portas, És aquele que escreve os sonhos, És a semente de amor serena que fora jogada em terra que não a sufocará. A confiança diz que meus olhos não necessitam ver para sentir, meus ouvidos não precisam escutar para saber pelo que é necessário interceder, pois Teu Espírito testifica a necessidade. Sem saber como, eu sei que o coração escreve todos os dias tudo que é preciso, o Senhor conhece as cartas que escrevo na tua ausência, e é por este imenso mistério figurado em laço que se dobra os meus joelhos, é por este mistério que há fé na unção que é derramada todas as noites enquanto dormimos, porque tenho clamado Emanuel.
Ele me chama por Josué, é guardião de Canaã. Ele é o Salvador do nós, é o Pastor destas ovelhas, é aquele que também clama por nós e pede para que cantemos o Seu amor para sempre. Ele está dizendo que é por nós e já o tenho escutado por longo tempo, pois toda vez que o chamo, Ele diz que é Deus connosco.
Somos três, Emanuel.

Sexta-feira, 1 de Janeiro de 2010

Fazer do velho, moço.

A carne sente que a transição de horas e ciclo podem incendiar negativamente a mente de uma pessoa. A mente e as emoções criam uma ilusão periódica, como se com a passagem dos segundos fosse possível apagar da memória os estragos dos milhares de minutos que já foram embora, mas que baralharam os teus dias, deixando um emaranhado de laços e nós que tens de desatar, sem saber como. As emoções gozam com o teu corpo, como se com a chegada do primeiro minuto do dia 1 de Janeiro de 2010 as ciladas do coração desaparecessem também com o passado. A noção deste tempo é uma grande miragem na tua cabeça.
Você acredita piamente que as coisas serão mais fáceis, mais belas e melhores que as anteriores, mas isso tudo é apenas uma desculpa estúpida para amenizar a dor e as cicatrizes dos fracassos do teu ano anterior. E você mente, e você finge para a tua alma. Você sorri para o minuto do ano que chega, escondendo a face adversária da realidade que quer derramar lágrimas e estragar a tua maquilhagem. E você não tem desculpas, têm de manter a postura.
O espírito sente que a transição de horas e ciclo podem incendiar positivamente o coração de uma pessoa. O coração e as emoções criam uma esperança que não é periódica, é gradual, e fazem com que a memória processe os estragos dos minutos, sugando dos escombros motivos para aprender e não deixar de lutar. O emaranhado dos laços e nós continuam na sua confusão, mas o desatar é um processo, e as emoções que não gozam mas cooperam com o teu corpo, fazem-te crescer, não te destrói. As ciladas do coração não vão embora com o passado pois a linha de tempo de disciplina e bonança são paralelas, mas a verdade deste tempo não é grande miragem, é oásis em deserto.
Você deixa a tua alma acreditar piamente no que é belo, no que é verdadeiro e perfeito, e essa certeza nunca é remédio que cura dor, é antes o antídoto do teu ano. E você briga com a tua mente carnal, quer se esquecer que tem alma, mas o espírito é chama que arde e derrota o que te quer vencer. Você chora pelo minuto do ano que chega, encara a face das forças adversárias que ganham vida ao encharcarem a tua cara e sem vergonha deixa que te estraguem a maquilhagem. E perdes a postura.
Porque essa sou eu, porque a vida pede para fazer do velho, moço.

Terça-feira, 15 de Dezembro de 2009

Retratos do amor.

O amor está preso na sua garganta e não consegue saltar cá pra fora. O amor está entranhado dentro de si, e você não consegue exprimi-lo pelos olhos, e lábios, e mãos e pele. O amor está escondido no fundo de uma gaveta empoeirada, no coração de um homem petrificado, no coração de uma mulher cansada, e os mesmos produzem soluços de amor, que proporciona risos aos matadores de sonhos.
Viver o amor é ter dias de bênçãos, deixar morrer expressões de amor é ter dias de maldição. Liberar amor é redimir desejos engavetados, é não querer ser lógico e racional, é não querer desperdiçar dias de luta e dias de glória. Liberar amor requer desprendimento, renuncia de medo, generosidade na atenção e aceitação.
O amor pede o íntimo, o amor pede a pele. O amor pede a alma, o amor pede calma. O amor clama por riso, o amor quer viver naquele paraíso. O amor precisa da razão que revirava tudo ao avesso, sufocando um cómodo da casa simplesmente pela presença que arrebatava sentidos em mim. Amor, não petrifique ainda mais o coração, pois a ideia de te sentir nunca será suficiente para te prender aqui mais algum tempo. Eu quero dormir durante todas as horas que antecedem a sua chegada, pois é em sonho que te vejo e sinto, e congelar sensações já não são possíveis. Tudo que vejo se resume numa face e num propósito. Tudo o que tenho é uma visão turva do teu rosto. Tudo que eu tenho é uma fotografia num retrato. E entrando dentro dele eu me lembro quando os beijos eram para mim.

Quinta-feira, 19 de Novembro de 2009

Simple Together.

Por todas as melodias que merecem milhares de aplausos, pelo acorde que soa com total vida, por ser dom. Por aqueles que fazem isto por mim, por ti. Pelo ar desnorteado, consequência do toque. Pelas notas que saem a magoar, a apertar e remoer, trazendo vida e contentamento. Pelo som que traz a cura.
A época em que acreditar no invisível era tempo de necessitar de provas, pois todas as capacidades e probabilidades que tinhas em mente foram testadas, apenas para saber como cada uma delas poderia acabar. Ao sentir a noite fria cair madrugada adentro ouvias todas as palavras que jamais imaginaste escutar. Por estar ali naquele quarto, ter pisado naquele chão antes, sabendo que era injusto estar ali e ouvir tudo aquilo no lugar onde nunca poderias pertencer, faz do cenário um lugar inapropriado. Os frustrados fogem, os desnorteados arrumam lugar para as notas rasgarem interior adentro. Sentados em poltronas que não são tuas, a escutar notas que serão para sempre deles, a olhar para coisas que não são tuas, vendo nelas tudo que um dia poderia fazer parte do que também deveria ser, de algum modo, teu.
Estou na época em que sabias dizer o que realmente acontecia aí dentro, época que parece distante... quando mesmo sem querer, ias lá no alto e voltavas muito melhor. Tu escrevias ao redor do ambiente inspirador, pensando em volta do quadrado, a imaginar o porque de te sentires tão envolvida, o porque de procurares estar nos lugares que escutavas as notas. Era arrebatador o som das notas tocadas, o lugar acabava por ficar cheio de vida.
Houve um tempo em que os dias eram repletos de compatibilidade, tudo o que vinha cá dentro era transportado para fora. Houve um tempo em que podíamos salvar-nos com toda a nossa força e eu aguentava firme o ficar desnorteada pelas notas. Mas esse tempo foi embora com a chegada do frio e do mal tempo. O mal tempo onde posso ver que o tempo que me foi tirado vale muito mais a pena do que sentir este solo agora, que mostra-me algum dos sentidos da vida.
O mal tempo, onde posso sentir aqueles que hoje não viram a luz. O mal tempo, onde as luzes de Natal lá fora mostram um ambiente acolhedor, com a vinda do dia sagrado...se tornando assim e só por esse facto, um tempo bom.
Com a vontade de ir a procura do frio e da dor, porque é isso que a música diz que é o amor.

Sábado, 3 de Outubro de 2009

Sentir como Ele sentiu.

Eras tu o meu caderno em branco, no qual dia após dia ia apontando todas as palavras que eu necessitava guardar bem seguras, a fim de que elas se tornassem reais. Eras tu a minha surpresa diária, a voz que surgia com o barulho das ondas, quando conversávamos no outono, na praia e nas noites. Eu buscava o teu abraço aos domingos de manhã, corria para o nosso lugar, a fitar o horizonte eu via a tua face e, naquela época, eu tinha paciência, porque eras tu somente quem eu esperava. Eras o hoje, refúgio.
Você derramou vida no meu ser, fez comigo uma aliança, um tratado. Agarraste a palma da minha mão com a tua doce mão, deste-me dádiva em perfeição e eu sabia que as minhas palavras tinham subido ao teu altar como incenso a queimar. Eu tinha um cheiro suave, Senhor.
Ganhei vitória, perdi conquista. Desperdicei sementes tuas, sufoquei-as. De trigo passei a joio e, sem nenhuma experiência sábia com o teu falar, ensurdeci ouvidos prontos a escutar. Eras tu a soprar no meu coração pelo lado de fora. Sentia eu o arrepio de ti?
Quantas vezes esteve ele comigo numa mesma sala, e não dei pela sua presença? Intermináveis segundos esteve ele a falar aos meus sentidos, a revirar minha mente, a abalar o meu coração, e eu não me toquei que era a sua voz, os seus pensamentos e sentimentos. Não posso imaginar como os seus ouvidos tinham saudade da minha voz aguda, não sei descrever o quanto aqueles olhos necessitavam ver resplandecer no meu rosto, submissão. E eu fiz-te ontem, Senhor.
Pediste palavras no meio da noite, pediste consideração pelos grandes feitos. Até mesmo um sorriso sincero necessitava os teus olhos e, como um adulto sem dias de sol, eu ignorei que mesmo tendo um céu nublado acima da minha cabeça, estavas ali para eu crer que após a chuva mandarias um arco-íris e com ele eu sorriria. Mas eu entristeci o teu rosto e abalei as forças do teu espírito.
Pedi e recebi o teu perdão. Com ele, tardiamente, mandaste revelação. Mas tudo o que roubei de ti vejo hoje com meu próprio entendimento, Senhor. Vejo o valor do tesouro que te saqueei, sinto o tempo perdido quando te condenei ao exílio. O gosto amargo da indiferença, a facada no peito da ausência de diálogo, a pressão exercida pela saudade de um melhor amigo. Sinto a cruz que carregaste por mim, tudo por me querer carregar no colo quando eu não tinha coragem ser levada por ti. Conto todos os dias as horas em que me perdeste e ainda tenho a coragem de dizer que não aguento mais! Mas Tu Jesus esperaste muito mais tempo por mim, do que tenho eu esperado por Ti. Não passei metade do tempo que passaste a minha espera, e como posso eu reclamar?!
Hoje és meu hoje Pai, hoje és meu agora. Sou hoje o que te fiz sentir no passado, a cruz que carregaste com o meu nome. Sou hoje corpo cansado e sem saúde, mas com força para dizer que a tua misericórdia ainda dura para mim.
Eu sei que para sentir a felicidade que sentiste ao me ver gritar pelo Teu nome, tenho de passar pelo esquecimento que te submeti, e não o nego. Apenas te peço Senhor nosso, que continues a ouvir o meu chamado, o grito no Teu ouvido e o sussurro de quem desfalece, pedindo-te que não passe de mim esse cálice, mas que me dês o privilégio de sentir a felicidade que o Senhor sentiu, ao chamarem o meu nome.

Quinta-feira, 24 de Setembro de 2009

Calor no outono.

As vozes do querer afectam a saudade reprimida que deseja ardentemente explodir num acto irracional, como se não houvesse amanhã, como se não tivesse que ser tão comportada, como se eu não suportasse resistir mais uma manhã, e noite, e madrugada.
Ser espírito faz com que eu permaneça perto da tua alma, e isso ainda tem bastado...mas existe hoje, muito mais forte e apressado, o Mas. E esta presença me obriga a clamar pela tua alma que fala e eu escuto, pela alma que exala cheiro e eu o sinto, a alma que chora e eu vejo lágrimas, que sorri e observo o característico riso. O sonho anseia realização, sentidos aguçados, face a face jogando um jogo de palavras que se encontra guardado por demasiado tempo. Mete o tabuleiro na mesa, construa as frases que derrubarão um muro de concreto construído pelas dúvidas do saber, escondidas do coração, repressão de sentir. Meu corpo está cansado de ser frio ou morno, pede sangue quente, alimento e vitalidade. A porta aberta pergunta quando será fechada novamente pelo dono da casa, a sala reclama que o inverno ai chega e ela não suportará o vento importuno a apagar o fogo da lareira. E o que fazes tu, frio no verão?
As agonias do querer se traduzem numa saudade reprimida, que necessita de um desfecho próximo. Ninguém quer saber se você faria como nos filmes ou não, eles querem apenas que o faça, de qualquer maneira. Homem imaturo ou maduro, mulher insensata ou prudente, faça o rio correr para o mar, e misture águas doces com salgadas. A junção do que se teme será a função mais correcta entre números e incógnitas, a junção do que se julga não existir será fusão entre coração e razão.
Deixe-me certa ou então seja espírito também e me mande embora.
Diga que estou lúcida nas vontades e neste raciocínio quase impensável ou então seja espírito e me mande embora.
Diga vai-te embora ou então diga rapidamente que a tua saudade reprimida pede calor nos dias de outono.

Quarta-feira, 9 de Setembro de 2009

Casa tratada, mobília restaurada.

A vossa porta de entrada é daquelas grandes e pesadas, madeira pura. Mandei ampliar a sala. A cozinha tem agora um fogão maior, e ele já tem chamado pelos vossos sabores. Não me esqueci do rádio...sei que tua comida necessita de música. Fiz questão de derrubar as paredes do quarto, se não o fizesse, onde colocaria os teus sapatos? Eu me lembro de tudo, nunca me esqueço de acrescentar nada.
Não pude deixar de te fazer uma linda mesa de madeira antiga, onde pousarás o teu computador, a tua bíblia e os teus pensamentos para eles e para mim. Nesta sala a tua alma irá me buscar, os vossos talentos irão me alcançar e os vossos instrumentos irão me adorar. O decorar? Vocês o sabem bem.
Na cave há o tal quarto escuro, onde surgirão as memórias a preto e branco, do que eu transformei em novo.
Do que restou da mobília, o grande sofá mudou de estofado. O que a ferrugem corroeu e a traça corrompeu você sabe, já não existe pois os lancei fora. Há o teu quadro, os vossos retratos, as vossas caixas e uma pilha de papel do livro inacabado.
Eu já tratei de tudo, filha minha. Eu varri a poeira do chão, purifiquei o ar, dei vida ao jardim. Nada disso vislumbraste com os teus olhos de chamar sonhos, mas eu trabalhei em cada instante...nas circunstâncias desafiadoras, nas situações esmagadoras. Eu restaurei a vossa terra e desconhecido não mais se achará nela. Aquieta o sonho, apodera-se da conquista, pois agora vestes novas dou ao noivo e a noiva, trarei de volta o exilado e separado sem faltar em coisa alguma.
A chave da casa por mim é enviada, para aqueles que têm a diferença em comum.

Segunda-feira, 20 de Julho de 2009

Alguns dos versos.

Sou sua noite, sou seu quarto se você quiser dormir. Eu me despeço, eu em pedaços. Como um silêncio ao contrário. Enquanto espero escrevo uns versos, depois rasgo.
Sou seu fado, sou seu bardo se você quiser ouvir. O seu soprano, um seu arauto.
Eu sou o sol da sua noite em claro, um rádio. Eu sou pelo avesso, sua pele, o seu casaco se você vai sair. O seu asfalto, se você vai sair.
Eu chovo sobre o seu cabelo, pelo seu itinerário, sou eu o seu paradeiro em uns versos que eu escrevo, depois rasgo. E depois rasgo. Eu sou pelo avesso.
Se você vai sair, eu chovo sobre o teu cabelo, pelo teu itinerário.
Sou eu o teu paradeiro em todos os versos que escrevo, e depois guardo. E a caixa de música permanece contando a história da nossa face, por vozes doces.
Conterrânea. Entrarás na casa dos jantares ao som da minha terra. Cantarás o livro da minha noite em claro, do meu casaco, do meu quarto e do meu cabelo. Do meu paradeiro, da minha longa estrada sem chegada, do meu eu do avesso. Do meu amor que sai e chora pelo meu itinerário. Do nunca abandonado, das metades. Da paixão ao som do fado, da essência do tudo que quero. Do meu zelo, do meu vaso frágil, do meu eu certo.
Você será a melodia que rasgará noite adentro. Portanto, tente desconcertar o coração do baixo, quando o coração sair. Faça com que chova pelos meus cabelos. Faça com que seja paradeiro. Faça com que se escreva uns versos, bata a porta e mude a minha vida.

Quinta-feira, 11 de Junho de 2009

Sapatos, um closet e flores para mim.

Senhores desperdiçam a dádiva de perfeição, esquecem-se de momentos para felicidade e descartam a possibilidade de enfrentar os embaraços que uma mulher pode representar. Senhores não costumam vaguear por lugares memoráveis, desconhecem a qualidade do tempo e desgastam sua motivação para amar quando uma senhora enrola a sua vida. Os senhores procuram uma senhora perfeita, olham para todos aqueles problemas e defeitos e, sem simpatia, não adiam nem mais um dia.
Senhoras causam tropeços. Senhoras sonham demais. Senhoras procuram a felicidade na dádiva de perfeição que lhes são entregue desde o dia do seu nascimento. Senhoras choram, senhoras procuram fotografias e idealizam gestos, toques e o amanhecer a dois. Senhoras gastam o seu suor e sufocam-se para ser alguém insubstituível, o seu amor é sacrificial e procuram não dar ouvidos para as vozes que os fazem morrer.
Senhores querem amar, senhores querem cuidar e se responsabilizar, mas não aguentam a fragilidade e abnegação que uma mulher pode representar. Senhores querem se sacrificar e sonhar, senhores almejam ter em mãos a insubstituível, mas para o nosso pesar, pensavam eles que aquela anterior era também a tal. Então os senhores mudam de ideias, enquanto elas estão todos os dias a caminho do altar.
Senhoras querem muito, senhoras pensam em demasia, por isso não aguentam lidar com a frieza que um homem pode representar. Senhoras querem amar menos, desfrutar mais e não ter a certeza de que o único é o insubstituível, tudo isto para não serem esquecidas no altar de todos os dias.
O que será feito de uma senhora como eu, quando um senhor realmente entender que almejo apenas uns tantos sapatos, aquele tal closet que irei sempre pedir, e uma flor pequenina todos os dias?

Sábado, 16 de Maio de 2009

Escolha a sua casa.

Optei por deixar que fosse guiada pelo caminho que me levaria até nós, tudo porque nunca penso em mim ou em si. No decorrer da viagem sua voz assombrava os meus temores, pondo para fora o que seu coração estava cheio. Você cansado das coisas que eu fazia, eu cansada de não conseguir o que tinha de fazer.
Eu permaneci sozinha em nossa casa, todos os dias sentei-me no alpendre e esperei escutar de longe o seu carro. Mas na medida em que os dias iam embora, o som dos carros se tornavam iguais para mim, porque nunca mais você apareceu. E o barulho familiar transformou-se em lembrança órfã. As flores do jardim murcharam com a chegada do Outono, as árvores começaram a despir-se do que as deixavam belas e, sem me importar com a aparência do nosso exterior, consenti a falta de vivacidade. Porém, apesar de tudo isto, os vizinhos puderam ver que eu escolhi o amor.
Não olhando para nós, mas olhando para dentro, eu não tive receio de ficar mais um pouco, para ter a certeza se estava mesmo sozinha. Não olhando para mim mas fitando seu si, não tive medo de esperar um pouco demais para ter a convicção de que não veria mais a sua face tão desejada. E passado o tempo do novo, a ferrugem tomou conta do mobiliário da casa. Mas ainda assim ninguém olhava para fora, e sim para dentro. Então as paredes que chamavam o seu nome disseram-me que eu escolhi o amor.
Eu escolhi o lutar, eu escolhi o amar, eu escolhi não ser enganada pelo seu engano, quando as minhas entranhas eram esmagadas pela força coerciva das suas palavras, afiadas como espada de dois gumes. Eu limpei a nossa ferrugem todos os dias, ganhei forças para embelezar o jardim e, novamente, coloquei os pés no alpendre.
No desenrolar da procura da lucidez, dei por mim a ver o seu sorriso na mesa de jantar. Enxerguei seu corpo cansado espatifado no sofá da sala, eu na porta a vislumbrar a presença do cansaço em si, dizendo para mim mesma que aquilo bastava. Via eu sua face engraçada no espelho da casa de banho, fazendo caretas e dizendo que eu não tinha razões para me preocupar. Cada metro quadrado da casa expelia o nós, nunca o meu eu sozinho. E como se o seu fantasma me bastasse, eu escolhi o seu amor.
Porque eu quero ficar e salvar o que é verdadeiro, mesmo que a verdade seja apenas eu. Eu quero mostrar que a casa está exactamente da mesma maneira que você a viu, quando bateu a porta e voltou-se para o seu mundo exterior. E eu posso não ser o bastante, mas ainda assim eu acredito querido, que se você não olhar para mim, mas olhar para dentro, você encontrará o que procura. Porque a resposta não sou eu. A resposta somos nós. Dentro de si, encontre a sua casa, e escolha o amor. Pois eu não quero me dirigir sempre a si, como se você fosse um Você. Quero me dirigir a si, sendo você o verdadeiro Tu. O que conheço bem. Portanto, deixe-se levar, deixe-se guiar novamente para casa. Que no alpendre encontrarás a que vive e morre, por ti.



Sábado, 18 de Abril de 2009

Vai lembrar, sim.

Todos os sonhos perseguem uma casa que não possui mobília. Todas as noites adormecem lendo pensamentos que devaneiam. E eles ainda estão aqui.
Ela está em todas as ruas, em todos os carros, em todas as caras. Seu cheiro, o qual não me recordo, está por todos os cantos, em todas as roupas. Seu riso ecoa nos tímpanos, seu toque persegue os sentidos e, longe de tudo que ela é, vivo com um fantasma que a representa.
Ela é uma pedra no meu sapato, o vento nos meus dias de primavera. Ela é o meu eu embirrado, o meu eu que não está para ai virado, e tudo que me impulsiona para longe...do seu telefone, da sua morada e do que lembra a sua insistente presença, tão ausente.
Ela foi uma comida mal temperada, um doce enjoativo e a falta de um copo com água, quando temos sede. Representou uma bagunça para quem é perfeccionista, um sapato apertado para quem quer sair pelo menos uma vez com o par perfeito...ela foi um dia de inverno e chuva.
Mas eu me lembro, e incomoda. E o pensamento de que ela será a cura para o esquecimento, a razão para o amolecimento, o verão que chega depois de muito tempo sem calor, as tardes tranquilas e as noites empolgantes, o renascer do que matei, o beijo que marcará o início do renascimento, o toque tão esmagador e a face tão procurada, eles incendeiam a minha mente, hoje tão descrente, mas amanhã tão certa.
Pois ela sabe que eu lembro e, sem saber o porque, não existe substituta.