quinta-feira, 19 de Novembro de 2009

Simple Together.

Por todas as melodias que merecem milhares de aplausos, pelo acorde que soa com total vida, por ser dom. Por aqueles que fazem isto por mim, por ti. Pelo ar desnorteado, consequência do toque. Pelas notas que saem a magoar, a apertar e remoer, trazendo vida e contentamento. Pelo som que traz a cura.
A época em que acreditar no invisível era tempo de necessitar de provas, pois todas as capacidades e probabilidades que tinhas em mente foram testadas, apenas para saber como cada uma delas poderia acabar. Ao sentir a noite fria cair madrugada adentro ouvias todas as palavras que jamais imaginaste escutar. Por estar ali naquele quarto, ter pisado naquele chão antes, sabendo que era injusto estar ali e ouvir tudo aquilo no lugar onde nunca poderias pertencer, faz do cenário um lugar inapropriado. Os frustrados fogem, os desnorteados arrumam lugar para as notas rasgarem interior adentro. Sentados em poltronas que não são tuas, a escutar notas que serão para sempre deles, a olhar para coisas que não são tuas, vendo nelas tudo que um dia poderia fazer parte do que também deveria ser, de algum modo, teu.
Estou na época em que sabias dizer o que realmente acontecia aí dentro, época que parece distante... quando mesmo sem querer, ias lá no alto e voltavas muito melhor. Tu escrevias ao redor do ambiente inspirador, pensando em volta do quadrado, a imaginar o porque de te sentires tão envolvida, o porque de procurares estar nos lugares que escutavas as notas. Era arrebatador o som das notas tocadas, o lugar acabava por ficar cheio de vida.
Houve um tempo em que os dias eram repletos de compatibilidade, tudo o que vinha cá dentro era transportado para fora. Houve um tempo em que podíamos salvar-nos com toda a nossa força e eu aguentava firme o ficar desnorteada pelas notas. Mas esse tempo foi embora com a chegada do frio e do mal tempo. O mal tempo onde posso ver que o tempo que me foi tirado vale muito mais a pena do que sentir este solo agora, que mostra-me algum dos sentidos da vida.
O mal tempo, onde posso sentir aqueles que hoje não viram a luz. O mal tempo, onde as luzes de Natal lá fora mostram um ambiente acolhedor, com a vinda do dia sagrado...se tornando assim e só por esse facto, um tempo bom.
Com a vontade de ir a procura do frio e da dor, porque é isso que a música diz que é o amor.

sábado, 3 de Outubro de 2009

Sentir como Ele sentiu.

Eras tu o meu caderno em branco, no qual dia após dia ia apontando todas as palavras que eu necessitava guardar bem seguras, a fim de que elas se tornassem reais. Eras tu a minha surpresa diária, a voz que surgia com o barulho das ondas, quando conversávamos no outono, na praia e nas noites. Eu buscava o teu abraço aos domingos de manhã, corria para o nosso lugar, a fitar o horizonte eu via a tua face e, naquela época, eu tinha paciência, porque eras tu somente quem eu esperava. Eras o hoje, refúgio.
Você derramou vida no meu ser, fez comigo uma aliança, um tratado. Agarraste a palma da minha mão com a tua doce mão, deste-me dádiva em perfeição e eu sabia que as minhas palavras tinham subido ao teu altar como incenso a queimar. Eu tinha um cheiro suave, Senhor.
Ganhei vitória, perdi conquista. Desperdicei sementes tuas, sufoquei-as. De trigo passei a joio e, sem nenhuma experiência sábia com o teu falar, ensurdeci ouvidos prontos a escutar. Eras tu a soprar no meu coração pelo lado de fora. Sentia eu o arrepio de ti?
Quantas vezes esteve ele comigo numa mesma sala, e não dei pela sua presença? Intermináveis segundos esteve ele a falar aos meus sentidos, a revirar minha mente, a abalar o meu coração, e eu não me toquei que era a sua voz, os seus pensamentos e sentimentos. Não posso imaginar como os seus ouvidos tinham saudade da minha voz aguda, não sei descrever o quanto aqueles olhos necessitavam ver resplandecer no meu rosto, submissão. E eu fiz-te ontem, Senhor.
Pediste palavras no meio da noite, pediste consideração pelos grandes feitos. Até mesmo um sorriso sincero necessitava os teus olhos e, como um adulto sem dias de sol, eu ignorei que mesmo tendo um céu nublado acima da minha cabeça, estavas ali para eu crer que após a chuva mandarias um arco-íris e com ele eu sorriria. Mas eu entristeci o teu rosto e abalei as forças do teu espírito.
Pedi e recebi o teu perdão. Com ele, tardiamente, mandaste revelação. Mas tudo o que roubei de ti vejo hoje com meu próprio entendimento, Senhor. Vejo o valor do tesouro que te saqueei, sinto o tempo perdido quando te condenei ao exílio. O gosto amargo da indiferença, a facada no peito da ausência de diálogo, a pressão exercida pela saudade de um melhor amigo. Sinto a cruz que carregaste por mim, tudo por me querer carregar no colo quando eu não tinha coragem ser levada por ti. Conto todos os dias as horas em que me perdeste e ainda tenho a coragem de dizer que não aguento mais! Mas Tu Jesus esperaste muito mais tempo por mim, do que tenho eu esperado por Ti. Não passei metade do tempo que passaste a minha espera, e como posso eu reclamar?!
Hoje és meu hoje Pai, hoje és meu agora. Sou hoje o que te fiz sentir no passado, a cruz que carregaste com o meu nome. Sou hoje corpo cansado e sem saúde, mas com força para dizer que a tua misericórdia ainda dura para mim.
Eu sei que para sentir a felicidade que sentiste ao me ver gritar pelo Teu nome, tenho de passar pelo esquecimento que te submeti, e não o nego. Apenas te peço Senhor nosso, que continues a ouvir o meu chamado, o grito no Teu ouvido e o sussurro de quem desfalece, pedindo-te que não passe de mim esse cálice, mas que me dês o privilégio de sentir a felicidade que o Senhor sentiu, ao chamarem o meu nome.

quinta-feira, 24 de Setembro de 2009

Calor no outono.

As vozes do querer afectam a saudade reprimida que deseja ardentemente explodir num acto irracional, como se não houvesse amanhã, como se não tivesse que ser tão comportada, como se eu não suportasse resistir mais uma manhã, e noite, e madrugada.
Ser espírito faz com que eu permaneça perto da tua alma, e isso ainda tem bastado...mas existe hoje, muito mais forte e apressado, o Mas. E esta presença me obriga a clamar pela tua alma que fala e eu escuto, pela alma que exala cheiro e eu o sinto, a alma que chora e eu vejo lágrimas, que sorri e observo o característico riso. O sonho anseia realização, sentidos aguçados, face a face jogando um jogo de palavras que se encontra guardado por demasiado tempo. Mete o tabuleiro na mesa, construa as frases que derrubarão um muro de concreto construído pelas dúvidas do saber, escondidas do coração, repressão de sentir. Meu corpo está cansado de ser frio ou morno, pede sangue quente, alimento e vitalidade. A porta aberta pergunta quando será fechada novamente pelo dono da casa, a sala reclama que o inverno ai chega e ela não suportará o vento importuno a apagar o fogo da lareira. E o que fazes tu, frio no verão?
As agonias do querer se traduzem numa saudade reprimida, que necessita de um desfecho próximo. Ninguém quer saber se você faria como nos filmes ou não, eles querem apenas que o faça, de qualquer maneira. Homem imaturo ou maduro, mulher insensata ou prudente, faça o rio correr para o mar, e misture águas doces com salgadas. A junção do que se teme será a função mais correcta entre números e incógnitas, a junção do que se julga não existir será fusão entre coração e razão.
Deixe-me certa ou então seja espírito também e me mande embora.
Diga que estou lúcida nas vontades e neste raciocínio quase impensável ou então seja espírito e me mande embora.
Diga vai-te embora ou então diga rapidamente que a tua saudade reprimida pede calor nos dias de outono.

quarta-feira, 9 de Setembro de 2009

Casa tratada, mobília restaurada.

A vossa porta de entrada é daquelas grandes e pesadas, madeira pura. Mandei ampliar a sala. A cozinha tem agora um fogão maior, e ele já tem chamado pelos vossos sabores. Não me esqueci do rádio...sei que tua comida necessita de música. Fiz questão de derrubar as paredes do quarto, se não o fizesse, onde colocaria os teus sapatos? Eu me lembro de tudo, nunca me esqueço de acrescentar nada.
Não pude deixar de te fazer uma linda mesa de madeira antiga, onde pousarás o teu computador, a tua bíblia e os teus pensamentos para eles e para mim. Nesta sala a tua alma irá me buscar, os vossos talentos irão me alcançar e os vossos instrumentos irão me adorar. O decorar? Vocês o sabem bem.
Na cave há o tal quarto escuro, onde surgirão as memórias a preto e branco, do que eu transformei em novo.
Do que restou da mobília, o grande sofá mudou de estofado. O que a ferrugem corroeu e a traça corrompeu você sabe, já não existe pois os lancei fora. Há o teu quadro, os vossos retratos, as vossas caixas e uma pilha de papel do livro inacabado.
Eu já tratei de tudo, filha minha. Eu varri a poeira do chão, purifiquei o ar, dei vida ao jardim. Nada disso vislumbraste com os teus olhos de chamar sonhos, mas eu trabalhei em cada instante...nas circunstâncias desafiadoras, nas situações esmagadoras. Eu restaurei a vossa terra, e desconhecido não mais se achará nela. Aquieta o sonho, apodera-se da conquista, pois agora vestes novas dou ao noivo e a noiva, trarei de volta o exilado e separado, sem faltar em coisa alguma.
A chave da casa por mim é enviada, para aqueles que tem a diferença em comum.

segunda-feira, 20 de Julho de 2009

Alguns dos versos.

Sou sua noite, sou seu quarto se você quiser dormir. Eu me despeço, eu em pedaços. Como um silêncio ao contrário. Enquanto espero escrevo uns versos, depois rasgo.
Sou seu fado, sou seu bardo se você quiser ouvir. O seu soprano, um seu arauto.
Eu sou o sol da sua noite em claro, um rádio. Eu sou pelo avesso, sua pele, o seu casaco se você vai sair. O seu asfalto, se você vai sair.
Eu chovo sobre o seu cabelo, pelo seu itinerário, sou eu o seu paradeiro em uns versos que eu escrevo, depois rasgo. E depois rasgo. Eu sou pelo avesso.
Se você vai sair, eu chovo sobre o teu cabelo, pelo teu itinerário.
Sou eu o teu paradeiro em todos os versos que escrevo, e depois guardo. E a caixa de música permanece contando a história da nossa face, por vozes doces.
Conterrânea. Entrarás na casa dos jantares ao som da minha terra. Cantarás o livro da minha noite em claro, do meu casaco, do meu quarto e do meu cabelo. Do meu paradeiro, da minha longa estrada sem chegada, do meu eu do avesso. Do meu amor que sai e chora pelo meu itinerário. Do nunca abandonado, das metades. Da paixão ao som do fado, da essência do tudo que quero. Do meu zelo, do meu vaso frágil, do meu eu certo.
Você será a melodia que rasgará noite adentro. Portanto, tente desconcertar o coração do baixo, quando o coração sair. Faça com que chova pelos meus cabelos. Faça com que seja paradeiro. Faça com que se escreva uns versos, bata a porta e mude a minha vida.

quinta-feira, 11 de Junho de 2009

Sapatos, um closet e flores para mim.

Senhores desperdiçam a dádiva de perfeição, esquecem-se de momentos para felicidade e descartam a possibilidade de enfrentar os embaraços que uma mulher pode representar. Senhores não costumam vaguear por lugares memoráveis, desconhecem a qualidade do tempo e desgastam sua motivação para amar quando uma senhora enrola a sua vida. Os senhores procuram uma senhora perfeita, olham para todos aqueles problemas e defeitos e, sem simpatia, não adiam nem mais um dia.
Senhoras causam tropeços. Senhoras sonham demais. Senhoras procuram a felicidade na dádiva de perfeição que lhes são entregue desde o dia do seu nascimento. Senhoras choram, senhoras procuram fotografias e idealizam gestos, toques e o amanhecer a dois. Senhoras gastam o seu suor e sufocam-se para ser alguém insubstituível, o seu amor é sacrificial e procuram não dar ouvidos para as vozes que os fazem morrer.
Senhores querem amar, senhores querem cuidar e se responsabilizar, mas não aguentam a fragilidade e abnegação que uma mulher pode representar. Senhores querem se sacrificar e sonhar, senhores almejam ter em mãos a insubstituível, mas para o nosso pesar, pensavam eles que aquela anterior era também a tal. Então os senhores mudam de ideias, enquanto elas estão todos os dias a caminho do altar.
Senhoras querem muito, senhoras pensam em demasia, por isso não aguentam lidar com a frieza que um homem pode representar. Senhoras querem amar menos, desfrutar mais e não ter a certeza de que o único é o insubstituível, tudo isto para não serem esquecidas no altar de todos os dias.
O que será feito de uma senhora como eu, quando um senhor realmente entender que almejo apenas uns tantos sapatos, aquele tal closet que irei sempre pedir, e uma flor pequenina todos os dias?

sábado, 16 de Maio de 2009

Escolha a sua casa.

Optei por deixar que fosse guiada pelo caminho que me levaria até nós, tudo porque nunca penso em mim ou em si. No decorrer da viagem sua voz assombrava os meus temores, pondo para fora o que seu coração estava cheio. Você cansado das coisas que eu fazia, eu cansada de não conseguir o que tinha de fazer.
Eu permaneci sozinha em nossa casa, todos os dias sentei-me no alpendre e esperei escutar de longe o seu carro. Mas na medida em que os dias iam embora, o som dos carros se tornavam iguais para mim, porque nunca mais você apareceu. E o barulho familiar transformou-se em lembrança órfã. As flores do jardim murcharam com a chegada do Outono, as árvores começaram a despir-se do que as deixavam belas e, sem me importar com a aparência do nosso exterior, consenti a falta de vivacidade. Porém, apesar de tudo isto, os vizinhos puderam ver que eu escolhi o amor.
Não olhando para nós, mas olhando para dentro, eu não tive receio de ficar mais um pouco, para ter a certeza se estava mesmo sozinha. Não olhando para mim mas fitando seu si, não tive medo de esperar um pouco demais para ter a convicção de que não veria mais a sua face tão desejada. E passado o tempo do novo, a ferrugem tomou conta do mobiliário da casa. Mas ainda assim ninguém olhava para fora, e sim para dentro. Então as paredes que chamavam o seu nome disseram-me que eu escolhi o amor.
Eu escolhi o lutar, eu escolhi o amar, eu escolhi não ser enganada pelo seu engano, quando as minhas entranhas eram esmagadas pela força coerciva das suas palavras, afiadas como espada de dois gumes. Eu limpei a nossa ferrugem todos os dias, ganhei forças para embelezar o jardim e, novamente, coloquei os pés no alpendre.
No desenrolar da procura da lucidez, dei por mim a ver o seu sorriso na mesa de jantar. Enxerguei seu corpo cansado espatifado no sofá da sala, eu na porta a vislumbrar a presença do cansaço em si, dizendo para mim mesma que aquilo bastava. Via eu sua face engraçada no espelho da casa de banho, fazendo caretas e dizendo que eu não tinha razões para me preocupar. Cada metro quadrado da casa expelia o nós, nunca o meu eu sozinho. E como se o seu fantasma me bastasse, eu escolhi o seu amor.
Porque eu quero ficar e salvar o que é verdadeiro, mesmo que a verdade seja apenas eu. Eu quero mostrar que a casa está exactamente da mesma maneira que você a viu, quando bateu a porta e voltou-se para o seu mundo exterior. E eu posso não ser o bastante, mas ainda assim eu acredito querido, que se você não olhar para mim, mas olhar para dentro, você encontrará o que procura. Porque a resposta não sou eu. A resposta somos nós. Dentro de si, encontre a sua casa, e escolha o amor. Pois eu não quero me dirigir sempre a si, como se você fosse um Você. Quero me dirigir a si, sendo você o verdadeiro Tu. O que conheço bem. Portanto, deixe-se levar, deixe-se guiar novamente para casa. Que no alpendre encontrarás a que vive e morre, por ti.



sábado, 18 de Abril de 2009

Vai lembrar, sim.

Todos os sonhos perseguem uma casa que não possui mobília. Todas as noites adormecem lendo pensamentos que devaneiam. E eles ainda estão aqui.
Ela está em todas as ruas, em todos os carros, em todas as caras. Seu cheiro, o qual não me recordo, está por todos os cantos, em todas as roupas. Seu riso ecoa nos tímpanos, seu toque persegue os sentidos e, longe de tudo que ela é, vivo com um fantasma que a representa.
Ela é uma pedra no meu sapato, o vento nos meus dias de primavera. Ela é o meu eu embirrado, o meu eu que não está para ai virado, e tudo que me impulsiona para longe...do seu telefone, da sua morada e do que lembra a sua insistente presença, tão ausente.
Ela foi uma comida mal temperada, um doce enjoativo e a falta de um copo com água, quando temos sede. Representou uma bagunça para quem é perfeccionista, um sapato apertado para quem quer sair pelo menos uma vez com o par perfeito...ela foi um dia de inverno e chuva.
Mas eu me lembro, e incomoda. E o pensamento de que ela será a cura para o esquecimento, a razão para o amolecimento, o verão que chega depois de muito tempo sem calor, as tardes tranquilas e as noites empolgantes, o renascer do que matei, o beijo que marcará o início do renascimento, o toque tão esmagador e a face tão procurada, eles incendeiam a minha mente, hoje tão descrente, mas amanhã tão certa.
Pois ela sabe que eu lembro e, sem saber o porque, não existe substituta.

domingo, 5 de Abril de 2009

Rios no ermo.

Sem alternativa, toquei na menina dos teus olhos. Por isso habitas em terra estranha, em cidade escura. Andas pelo deserto, a procura de um vestígio de vida, na cidade que queres ficar, onde hoje não há lugar protegido. No horizonte da cidade não vês a plenitude da tua bênção. Filha minha, neste lugar assolado, apenas existe ruínas.
Mas outra vez te verei, e sararei a tua terra. Teu deserto se converterá em jardim, pois Eu colocarei rios no ermo. Serei achado de ti, restaurarei a sorte como no princípio. Novas vestes darei, ao meu povo escolhido. Onde não há fruto, eu farei brotar sementes. Onde não há esperança, eu farei nascer a fé.
Porque Eu Sou o Senhor teu Deus, o que te fez sair da terra que te dei por herança, para renovo. Agora pois, tendes tristeza, mas outra vez te verei, e o teu coração se alegrará, a tua tristeza se converterá em alegria, que ninguém poderá tirar.
Porque o Senhor Deus me ajuda, assim não me confundo; por isso pus o meu rosto como um seixo, porque sei que não serei envergonhado.

quarta-feira, 18 de Março de 2009

Você não sabe voar de volta.

Monólogos intermináveis com o coração. É outra vez a minha vida irreal. Parece que nasci com a presença dele cá dentro. É como se tudo já lhe pertencesse desde o início...como se não fosse possível escapar do seu gosto tão singular, dos gestos tão seus, do carácter peculiar que o define.
Você se faz tão presente aqui, incompreensão, que sua vida em mim não me deixa prosseguir. Você é tão dono de mim, canção minha, que o simples abrir da sua boca arrebenta com meu interior...estilhaça o meu corpo frágil.
Não te sei abandonar. Desconheço a maneira de desprender-te do meu ser. Você permanece tão dentro, e ainda assim, tão fora de mim.
O fardo da lembrança oprime em cada presença, a ideia de renuncia reluta com o sufocar da crença em nós. E vendo sua face rendida às suas convicções, reconheço que não sou genial, não desencadeio irregularidades em ti, não sou vida em ti.
Vivi para você. Morri para você.

domingo, 22 de Fevereiro de 2009

Amor errante.

Eu seria os dias de samba e os jantares ao som de MPB. O saltar no colo e os beijos nos pés. Seria a metade de uma família multi cultural, o quarto com fotografias, seria o contrabaixo e a sala de música. Eu seria o meu quadro com flores secas, as caixas empilhadas no guarda-roupa, o sofá enorme na sala. Seria mãe dos teus filhos, avó dos teus netos.
Eu seria o teu olhar ao sair na rua, a sombra da tua sombra. Seria o arrepio que chega com o lembrar de um momento específico. Eu seria o silêncio do teu quarto e o vazio do teu carro. Seria os objectos que te rodeiam.
Eu seria.
Porque nunca serei...aquela que estará presente, que te fará comida, que te esperará em casa. Que será teu cheiro, tua segunda face, tua segunda sombra. A que apoia, que edifica sobre a rocha, que levas no olhar. A que sem, não vives. A que quer sempre iluminar a estrada, a casa, o quarto, onde você está.
Então, deixo ir a vontade de ser. E procuro ver que não fui o bastante, os dias do teu fado, os pulos no colo. Não fui o bastante para pertencer a uma família multi cultural nem ter a minha face em quartos com fotografias.
Deixo ir a vontade de ser, pois eu não era a tua sombra, o arrepio de nós, a alegria do teu quarto e o barulho agradável no teu carro.
Eu não era e nunca fui, o amor puro.

terça-feira, 27 de Janeiro de 2009

Diálogo.

Jogue fora o que acaba com as madrugadas chuvosas. Deite abaixo aquilo que não pode ser verdadeiro. Não espere pela campainha, não espere o amanhã, pois ele está relutante e se afunda no que esgota a sua boa vontade.
Deixa-me ir embora, parte de mim. Desprenda-te dos laços que adormecem junto contigo, rasgue, quebre, mande fora o que sou eu em meio ao teu mundo. Porque não se pode viver em volta de objectos que já não tem mais vida... o ar que tu respiras, os sufoca.
Deixa-me ir embora, parte de mim. Diz que é necessário desprender-se, para finalmente se soltar. Fale ao ouvido que não podes aparecer no meio da noite. Grite e faça com que eu entenda muito bem a tua certeza...mesmo que ela esmague.
Deixa-te ir embora, metade do que sou. Diz que odeias aquilo que faço, e assim saberei que estou a ser correcto contigo. Não expliques a razão de mergulhares na imensidão do nosso mar, pois eu também o faço e não te digo o porquê.
Deixa-me ir embora, metade do que sou. Fale ao pé do ouvido, mas antes suba num banco. Assim daremos risada antes de embarcares no teu solitário quadrado acolhedor. Assim eu verei como ainda és aquela atrapalhada, feliz. Tu reflectes o meu passado, metade de mim. Reflectes as minhas tardes tranquilas, e as minhas noites empolgantes.
Mas dizes tu, metade do que sou, que não falemos disso agora...pois eu preciso deixar que prossigas...sem lágrimas tens de ir adiante. Nesta fria noite de inverno, tens de me deixar...pelo menos uma madrugada, faça com que eu esqueça...que eu deixei-te ir embora.

sexta-feira, 23 de Janeiro de 2009

A Tua Presença me basta.

Não Te importaste com a falta de conhecimento da minha parte...amaste-me desde o ventre de minha mãe. E isso, basta.
Tu és Aquele que move o meu interior, criaste-me perfeita para Sentir o Teu Espírito. Sabes bem o quanto dou valor ao Sentir, portanto Graças dou por sentir-Te cá dentro, a mover o meu interior. Tu conheces o meu deitar e o meu levantar, ouves o meu clamor de dia e de noite, não Te cansas da minha face Senhor. E isso, basta.
Sabes bem a vontade de Ti, a sede do Rio que És...portanto encha o meu vaso, que ele transborde da Tua vida!
Agradeço-te por estares a usar-me em favor de uma obra muito maior, que a minha pequenez não pode compreender, mas Tu o sabes, e sabes bem...
És Perfeição, Grandeza. A falta de sabedoria limita as minhas palavras, mas só pelo facto de saber que Tu estás aqui...isso é algo sem medidas. E isso, basta.
O meu ser anseia ver-Te, minha carne clama pelo Deus vivo, os meus sentidos chamam-Te...a pedir, que o corpo possa sentir, que os ouvidos possam ouvir-Te, que as mãos toquem os céus, que a boca proclame as maravilhas que tens feito em mim, em nós.
Muitos verão a Tua mão, nas coisas que eu não tenho visto, nas situações que parecem impossíveis. Muitos verão a Tua glória na vida daqueles que estão a honrar o Teu nome.
Escondam-se as faces que duvidam do Teu agir...pois em silêncio trabalhas Pai, e no oculto quebrantas corações. Sendo eu tão pequena, não desanimarei perante a muralha que veio sobre mim, pois aquela Moldaste, Fizeste-a edificar a casa sobre a rocha. Isto é Graça, vem de Ti...e isso, me basta.
Levantarás o meu rosto sem mácula, e não falta muito, para os meus dias serem mais claros que a manhã. Bendita serei quando entrar, e bendita serei ao sair. Colocarás-me por cima, não por baixo. Porque não importa Deus meu, o facto da figueira ainda não florescer, nem haver fruto na vide...o produto da oliveira pode estar a decepcionar, os meus campos podem estar sem mantimento, até mesmo as minhas ovelhas foram todas arrebatadas, não há gado no curral Senhor...
Mas ainda assim, eu me alegrarei, exultarei no Deus da minha Salvação...
Porque o Senhor é a minha força, e fará dos meus pés como os da corça, quando procura água pelo deserto...o meu Deus fará com que eu ande por lugares altos...então meu querido, eu posso realmente dizer-te, que o agir Dele, basta.

A Tua presença muda Tudo!

quinta-feira, 8 de Janeiro de 2009

O teu jardim.

Eu brotarei em lugar que não há terra. Mesmo sem água e Sol, crescerei com saúde. Eu não irei murchar perante a falta de alimento, antes serei a mais bela, e a única com vida.
Não existirá alguém que possa arrancar-me de lá, pois o Jardineiro me guarda. Em meio a infertilidade da terra, estarei alí. No meio do nada, me encontrarás.
Então todos questionarão e não entenderão, a razão de eu ter perseverado, sobrevivido. Dirão loucura, porque aquela nasceu do pó, permaneceu no invisível e continuou a crescer por causa da pureza do alimento que não se corrompe.
O Jardineiro dirá, então verás que eu sempre fui o teu jardim.


quinta-feira, 25 de Dezembro de 2008

A cidade que não queres ficar.

Como sangramento que não estanca, assim ela perde as suas virtudes. Como a traça que corrompe, e a ferrugem que torna envelhecido, assim compara-se o que ela transmite.
Dizem que ela não tem mais tempo para retroceder, nem para mostrar-se bela e irrepreensível. Dizem por aí que já não existe beleza interior. Tão sincera e verdadeira ela era.
As suas intenções, não teve alguém que as compreendesse. Os seus passos, não houve quem entendesse para onde queriam ir. Ser estranho é o ser que representa.
Já não se reconhece o rosto, nem o toque, muito menos o profundo. Não vê-se nada de bom para procurar, pois as suas partes despedaçadas encontram-se perdidas em lugares encobertos por nevoeiro. As virtudes são ocultas, o coração de vidro fora estilhaçado por todos aqueles que não acreditaram.
Hoje encontra o vazio da face que não se vê, das mãos que não sente, do coração que não respira, tudo porque és estrangeira, e já não existem conhecidos. Não há família, não há consideração. A compatibilidade é escassa, e as palavras que matam vêm em demasia. E assim, é tão fácil tornar-se estranho.
Estranha ela é, em meio aos teus pensamentos, brancos como a neve.

quinta-feira, 11 de Dezembro de 2008

O Tempo não é amigo.

Inseparável. Fiel. Dador. Edificador. Insubstituível. Doce. Cheiro suave.
Não dilacera, antes junta pedaços. Não suspeita mal, antes deseja o bem.
É íman que não se vê, braço estendido, companhia invisível.
Mostra-me a tua singularidade, que mostrarei-te o porquê de não poderes ser.
Não és fiel, traíste-me em todos os momentos máximos nos quais pedi-te para esperar mais um pouco, para não seres tão apressado. E quando imploro para que te vás embora, surges com toda a força. Não deste os segundos que ansiei, nem jogaste fora o pouco que restava para passar.
Quando peço-te que construas comigo uma casa, logo depois apareces e destróis tudo com a tua impaciência. Gostava tanto de poder congelar a tua vida, fazer-te humano para entenderes...
E sentires, por vezes, o teu cheiro que não é suave, as tuas palavras que não são doces...
Não és meu amigo, tempo.
És apenas algo que se esfarela entre os meus dedos. És por vezes, desafinação. Desarmonia entre vidas fazes tu...
E contudo, ainda estás aqui, a roubar-me vestígios da minha terra, do coração que é meu, e do que ainda me resta.

quinta-feira, 20 de Novembro de 2008

Violinos, Contrabaixos e Bettencourt para mim.

As calçadas de pedra contam histórias do passado. E que belo passado...
A arquitectura singular define a magia dos lugares aos quais, definitivamente, posso dizer que também são meus. A música que tocas dissipa a saudade do vento, do ar, do mar. O canto a sair da tua boca é mansidão para nossos ouvidos, é pronuncias daquela terra, fértil em amor.
Imagino o andar das pernas admiradas, devido a geografia infinita de cantos, recantos, amores, paixões que ali se vive, que viverás!
Sente-se a companhia do coração aberto a rodear castelos, a descobrir segredos, a abraçar virtudes. Tudo isto fez ele, a fim de colher vestígios, para juntar sabores doces, suaves. Tudo ele fez, com o intuito de viver melhor no lugar em que sempre estará.
Vá andar por ali, e descubra a essência do sítio. Procure o amor, e ali o encontrarás.
Porque não adianta dizer que é frio demais. Quero ficar.
Não peças para deixar de sonhar com o andar de mãos dadas, admirando a arquitectura singular. Sonharei o tempo todo.
Não digas que já não há lugar para conhecer...para brincar debaixo das árvores, para dormir em camas de pousadas emotivas...para Sentir. Procurarei os lugares.
Não me venha chatear terra minha, pois meu coração já não te ouve. Não foi em ti que encontrei o amor, não foi em ti que degustei o prazer de senti-lo. Não foi em ti que busquei o ópio que consola.
Foi na terra nossa, que chama pelo meu nome. E será nela que, novamente, encontrarei o amor...brincarei onde quer que seja...dormirei em pousadas emotivas...andarei de mãos dadas...cantarei amores...viverei para mim e para ti.
Porque Lisboa diz:
- Vem...
Vem, que o inverno vai queimar o que te dói.
Vem menina moça, que nem o último a cair vai perder!

sexta-feira, 17 de Outubro de 2008

Ele não irá mover-se.

Pensamentos dançam freneticamente na mente de quem implora o cessar da música.

O corpo não consegue relaxar perante a música que toca sem parar, fazendo com que os sintomas ganhem vida dentro de um organismo todo descontrolado pelo coração que bombeia sangue para lugares errados.
Bendito coração que assegura a circulação de sintomas por todo ser que sou eu, será que consegues sentir a dualidade das minhas palavras? Acredito que não. Não serias atrevido o bastante para continuar a exercer essa insignificante função que causa desordem no corpo. Deixa-me tirar da tua vida aquilo que é essencial para que tu te mantenhas vivo também, e veja o que tu me estás a aprontar! Já pensaste o que seria de ti se não fosse o sangue que Deus te deu? Serias inútil. E se tu não tivesses a mim? Onde irias viver?
Sendo assim, pensa bem no que estás a fazer com o lugar que tu pertences. Porque infelizmente, eu não posso mover-te para qualquer lado...coração meu.
Coração meu, toma juízo. Terás de ganhar vida própria, não farás do meu corpo aquilo que tens feito, não bombearás sangue em nenhum canto do meu ser, pois eu não deixarei que tu te movas comigo!
Nem um passo sequer irás dar. Guardarei-te aqui, num congelador, com os mesmos sentimentos. Sei que continuarás a ser teimoso e impaciente, mas sabes tu coração que é meu, eu não quero que mudes. Apenas deixe de lado esse querer interior, e não mova-se.
Não haverá sombra de alteração. Nunca houve, e se Deus quiser, nunca haverá.
Por isso coração meu, quieto. Ele não deixará que tu te movas.

segunda-feira, 6 de Outubro de 2008

Canção que mata.

Há tanta loucura me rodeando, tanta coisa acontecendo, que fica difícil respirar.
Toda minha fé tinha ido embora, mas Você a traz de volta, tornando as coisas reais para mim.
Eu não estou certa das minhas prioridades, perdi a noção de onde deveria estar. E como unção caindo sobre mim... Você tornou as coisas reais... e eu estou correndo para Você.
Porque Você é o Único que me salva...o Único que pode me dizer que isso tudo é real, mesmo que eu não queira.. porque Você quer tornar a mudar minha realidade.
Quando a minha cabeça está forte mas o meu coração está fraco, fico cheia de "furacões" e incertezas. Porém eu consigo achar as palavras, Você ensina o meu coração a falar, ensina-me a conversar com minha realidade, com o intuito de fazer com que eu perceba.
Todo mundo está falando palavras que eu não entendo, Você deve ser o Único que sabe exactamente quem eu sou...porque conhece toda a realidade em volta. Porque Você torna as coisas reais para mim.
Espero que eu consiga chegar, porque o único lugar onde eu quero estar é onde acredito que pertença.
Ainda tenho tanto que aprender, mas se Você está aqui comigo, eu sei qual direcção tomar. Você sempre me dá algum lugar, algum lugar onde eu posso aprender a respirar novamente. Você me fala ao ouvido dizendo: Não escute o que te dizem ao coração, a realidade sou Eu.
Você torna as coisas reais para mim.

terça-feira, 23 de Setembro de 2008

É necessário recuar.

Retroceder...

Porque ela sabe que um dia terá um quarto cheio de fotografias, mas agora não, porque ainda não é a hora.
Porque ela sabe que possui uma caixa cheia de letras, e há tantas letras. Mas agora não há letras recentes, nem sequer um papel recente. Porque ainda não é hora da caixa receber nada.
Porque ela sabe que possui uma caixa cheia de vestígios, de cheiro. Mas agora não é hora, ela sabe que pode deixar isso para depois, pois sangra.
Porque ela sabe que, ao escutar o abrir da porta do passado, ela...